LettError: A Transgressão Esperançosa
por Sylvio de Ulhôa Cintra

Inconformado com a parada cardíaca do doente, seu médico, determinado a não aceitar a morte, massageando e agredindo o morto fez o moribundo renascer. Estava então, pela transgressão às normas médicas decretada oficialmente a mudança do conceito de morte. Não mais o coração era o indicador da vida, seu sucessor passou desde então a ser o cérebro com suas ondas. Bem que eu preferia, em nome da poesia, que continuasse o reinado do coração, mas aceito, respeito, reverencio e homenageio este a imagem deste grande transgressor que alargou consideravelmente o território da medicina. A transgressão faz parte da história, faz parte da ciência, da técnica, da política, da arte e da própria vida. Mas é também a arma dos espíritos despreparados, incultos e preguiçosos, e muitas vezes, egoístas. A história entretanto contemplou os trangressores que efetivamente contribuiram para a humanidade, viver melhor. Hoje respira-se no design gráfico o clima da transgressão: miscelânea tipográfica, diagramações instáveis, mistura de informações em lay-outs caóticos. A ocorrência deste fenômeno não é característica de um artista, de uma região mas sim de toda uma geração globalizada cabe neste quadro uma pergunta: que trangressão é essa, produzida em nossos dias? Os artistas preferidos da moçada são desenhistas de garatujas (algumas delas extremamente expressivas). A síntese tão procurada nos anos 60 se tornou pobreza nos anos 90. Alguns efeitos difusos se embaralham e, confundem a clareza do texto. Hoje o humor é buscado como forma de evitar a utilização de programas gráficos que executam a mais requisitada palheta de cores. O texto tipográfico, busca o desenho agredido, a forma que se desintegra. O designer de nossos dias é um profissional que manipula poucos programas gráficos (3 ou 4) e ao contrário da disciplina embutida nos próprios programas buscam a variedade, o efeito frágil. A luz e sombra, hoje é um processo de construção bastante simples e fácil de obter-se, e no entanto, os desenhos buscam outros caminhos. A miscelânea tipográfica, a anarquia na escolha dos tipos, sugere que estamos num momento expressivo de nossa vida cultural, lembrando que "as linguagens de uma época além de serem instrumentos de descrição de eventos são também modeladores do próprio evento". Descrever um mundo desordenado é modelar nosso próprio mundo. Na desordem do design moderno podemos superficalmente criticar a bagunça, mas no fundo no fundo percebemos um nova ordem que se instala. Um grande exemplo da transgressão promissora é o trabalho de Erik van Blokland e Just van Rossum. Esses designers holandeses que colocam a criatividade a ironia e interdisciplinaridade como carro chefe do seu trabalho. O instigante desta dupla começa no nome LettError, uma mistura de letra, erro e terror. Seus trabalhos na busca da irregularidade tipográfica são notáveis. Os memoriais de cada projeto são um passo adiante na busca do design de nossa época. Seus trabalhos interativos são extremamente criativos. Se a transgressão é a busca de nossa época, o trabalho desta dupla nos ajuda a sentir e entender melhor a transgressão promissora de um novo design gráfico que estamos vivendo.